Quase todo imóvel de frente para o mar no Brasil tem um sócio silencioso: a União. A escritura pode estar em nome do vendedor há décadas, e mesmo assim o terreno continuar sendo federal, com cobrança anual, pedágio na venda e limites para lotear. Quem compra casa na praia sem consultar a Secretaria do Patrimônio da União compra também as dívidas e as restrições que vêm com ela.
Terreno de marinha é faixa de 33 metros contada da linha do preamar médio de 1831 para o continente, e pertence à União (art. 20, VII, da Constituição; art. 2º do Decreto-Lei (DL) nº 9.760/1946). Quem tem casa ali tem, no máximo, o domínio útil (aforamento) ou uma inscrição de ocupação. Paga 0,6% ao ano se for foreiro, 2% ao ano se for ocupante, e a cada venda a União cobra laudêmio de 5% sobre o valor do terreno. A escritura particular não afasta nada disso: o Superior Tribunal de Justiça (STJ) firmou na Súmula 496 que registros de propriedade particular em terreno de marinha não são oponíveis à União.
O critério é geográfico e histórico. A linha de referência é a do preamar médio de 1831, e a demarcação é feita pela SPU em procedimento próprio. Por isso o comprador não consegue saber, só olhando o imóvel, se está dentro ou fora da faixa: casas a mais de 33 metros da praia de hoje podem estar dentro, porque a linha da costa mudou em quase dois séculos, e o contrário também acontece. Além dos terrenos de marinha, há os acrescidos de marinha, formados natural ou artificialmente para o lado do mar, que seguem o mesmo regime.
| Situação | O que o particular tem | Cobrança anual |
|---|---|---|
| Aforamento (enfiteuse) | Domínio útil, transmissível e estável; a União conserva o domínio direto | Foro de 0,6% do domínio pleno (DL 9.760/1946, art. 101) |
| Ocupação inscrita | Posse precária reconhecida pela SPU, sem direito real | Taxa de ocupação de 2% do terreno, sem benfeitorias (DL 2.398/1987, art. 1º) |
| Fora da faixa (alodial) | Propriedade plena, como em qualquer imóvel | Só o Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) ou o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), conforme o caso |
O foreiro que deixa de pagar o foro por três anos consecutivos, ou por quatro anos intercalados, sujeita-se à caducidade do aforamento (parágrafo único do art. 101). A ocupação é ainda mais frágil: a União pode retomar a área, e a inscrição não gera propriedade. A Lei nº 13.240/2015 abriu a possibilidade de a União alienar o domínio pleno de imóveis nessa situação, em hipóteses e procedimentos que ela define.
O foro e a taxa de ocupação são cobranças anuais da SPU sobre o valor que ela atribui ao terreno. O laudêmio incide a cada transferência onerosa do domínio útil ou dos direitos de ocupação, e a escritura só é lavrada depois de pago e emitida a Certidão de Autorização para Transferência (CAT). A base do laudêmio é o valor atualizado do terreno, excluídas as benfeitorias (DL 2.398/1987, art. 3º): quem constrói uma casa de alto padrão num terreno simples paga laudêmio sobre o chão, não sobre a casa.
É comum o vendedor mostrar uma matrícula limpa, com cadeia dominial de décadas, e afirmar que o imóvel "não é de marinha". A Súmula 496 do STJ encerra a discussão: os registros de propriedade particular de imóveis situados em terrenos de marinha não são oponíveis à União. Se a demarcação alcançar o terreno, a titularidade da União prevalece sobre a matrícula, e o comprador passa a ter, no melhor cenário, a posição de ocupante ou foreiro.
Quem pretende desmembrar um terreno grande de frente para o mar, fazer condomínio de casas ou lotear precisa saber em que regime ele está. A ocupação, por ser precária, não admite parcelamento do solo nem formação de condomínio pelo particular; o DL nº 9.760/1946 veda loteamento e desmembramento de área ocupada, salvo quando feitos pela própria União ou autorizados em hipóteses excepcionais. No aforamento a margem é maior, mas cada venda de unidade vai exigir CAT e laudêmio.
Para o investidor que compra uma área para depois vender lotes, esse detalhe define se o projeto existe. Não adianta aprovar o parcelamento na prefeitura se a área está inscrita como ocupação na SPU.
Hipótese: casa de frente para o mar vendida por R$ 1,5 milhão, em terreno que a SPU avalia em R$ 600 mil.
| Cobrança | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Laudêmio na compra (uma vez) | 5% × R$ 600 mil | R$ 30.000 |
| Taxa de ocupação (por ano) | 2% × R$ 600 mil | R$ 12.000 |
| Foro, se aforado (por ano) | 0,6% × R$ 600 mil | R$ 3.600 |
O Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) municipal é cobrado à parte, sobre a transmissão, conforme a lei do município. A diferença entre ocupação e aforamento, nesse exemplo, é de R$ 8.400 por ano, o que em dez anos passa do valor do laudêmio. Por isso o regime de inscrição entra no preço do imóvel.
Há uma proposta de emenda constitucional sobre terrenos de marinha aprovada pela Câmara em 2022. Até a data desta publicação, as regras acima continuam vigentes e são as que se aplicam a quem compra hoje.
Sim, nas transferências onerosas. O laudêmio é de 5% sobre o valor atualizado do terreno, excluídas as benfeitorias (Decreto-Lei (DL) 2.398/1987, art. 3º). Ele é pago antes da escritura, que só é lavrada com a Certidão de Autorização para Transferência emitida pela Secretaria do Patrimônio da União.
Pode haver matrícula particular, mas ela não prevalece contra a União. A Súmula 496 do Superior Tribunal de Justiça (STJ) diz que registros de propriedade particular em terreno de marinha não são oponíveis à União. Se a demarcação alcança o imóvel, o particular tem, no máximo, o domínio útil ou uma inscrição de ocupação.
Não. Com a redação dada pela Lei 13.240/2015 ao art. 1º do Decreto-Lei (DL) 2.398/1987, a taxa de ocupação passou a ser única, de 2% do valor do terreno, sem benfeitorias. Textos que ainda falam em 5% para inscrições posteriores a 1988 estão desatualizados.
Depende do regime. Área inscrita como ocupação não admite parcelamento nem condomínio pelo particular, porque a ocupação é precária. No aforamento há mais margem, mas cada unidade vendida vai exigir laudêmio e autorização da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) para a transferência.
Vai comprar ou vender imóvel de frente para o mar? A pesquisa na SPU vem antes do sinal.
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